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às vezes por um segundo a alma acorda para um grande êxtase sereno
num sopro de suspensão e beleza passa e beija a fronte do homem parado
e então o poeta surge e do seu peito se ouve uma voz maravilhosa
que palpita no ar fremente e envolve todos os gritos num só grito.
(trecho de "o incriado" - vinícius de morais)
talvez, ao escrever este poema, vinícius estivesse sentindo, entre outras senações, a mesma serenidade que tenho sentido.

eis que começo mais uma caminhada para dentro de mim mesmo. desta vez, não pretendo retornar. que seja para sempre.
quero contemplar a serenidade das minhas sensações desejantes e viver da alma para fora, tendo o mundo externo como paisagem.
mas levarei em minha mala aqueles que amo, para sempre.
dora: ali tem várias tapioqueiras.
eu: mas só quero se for de uma tapioqueira velha (com expressão sofrida), gordinha (com pelancas nos braços), negra (jamais branca) e com um lenço na cabeça (de preferência velho)... são as melhores.
depois fiquei pensando: por quê prefiro esse tipo de tapioqueira?
seria porque foram os escravos que introduziram a tapioca na nossa culinária, a partir das 'receitas' indígenas?
seria este o arquétipo de tapioqueira no meu inconsciente?
não tenho certeza, mas a tapioca estava especialmente apetitosa. simples: com bastante côco e queijo.
absurdamente salivante!!!
hmmmmm
surge o medo de perder o amor... sou sem graça, sem molho, sou recluso, quase anti-social...
preciso de algum momento em silêncio...
eu que jogo os olhos pela janela
que faço do travesseiro túmulo
que crio oceanos e apago fechaduras
me esfacelo
me engulo
me esqueço
amanheço
e lembro
eu que não sou eu
que sou vários
que sou muitos
me perco
me extravio
me naufrago
me afogo
me asfixio
eu que sou meu câncer
minha lâmina
minha forca
que sou chave sem fechadura
que crio cidades no meu quarto
que invento o que acredito
e finjo o que insisto
e insisto em fingir que acredito no que invento
eu que sou água e sou pedra dura
que sou areia
que sou caverna
que vôo com os pés no chão
que não tenho chão
e que não tenho pés
eu que sou a dor
a dor que dói sorrindo
a dor que sorri doendo
me bato
me grito
me bato
e me grito
eu que sou meu pus
que sou abismo
eu sou eu mesmo
mesmo sem ser eu
eu que tenho vários de mim
eu que não me possuo
que pinto no vento paisagens invisíveis
eu que sou raiz enésima de uma dízima infinita
eu que sou uma progressão geométrica
uma reta
semi-reta
sem ser metade
só um pedaço
pedaço inteiro
sou eu
eu mesmo
eu que não sou meu
eu que me faço me desfazendo
me rasgo
me furo
me torço
contorço
me enforco
amídalas
inferno
estafermo
ermo
interno
eu que sou a fuga
a renúncia
a entrega
o espasmo
o murmúrio
eu que sou ventania
que sou carne
fantasma
libido
celibato
fúria
eu que sou forte
toneladas de angústia
eu que não me pertenço
que não me mereço
que não me devo
que não me posso
me descasco
me espremo
me supuro
me desatino
eu que sou eu
eu mesmo
que sou muitos de mim
muitos que não são eu
eu que não me agüento mais